segunda-feira, novembro 21, 2005

Repete tudo.



Repete tudo.
Só mais uma vez

para que de vez te troque por mim.

Em súplica te ordeno
Que condenes o que te é eterno,
o mais tumultuoso contentamento.
em sonos de azul e de vento.

Ordeno-te o meu firmamento.

Transladei os tumultos.
Enterrei os vultos.

Túmulos ocultos
Que eu ocultei.

Repete as sílabas adocicadas
Com letras envenenadas
Para que sucumba outra vez.

Repete a porta de entrada
E a fuga por validar.
Que por repetir a tua invalidez
Validei a vontade pouco acertada
De errar.



21. 11. 05
*Mó

sábado, novembro 12, 2005

Pego nas penas e junto-as uma por uma, pela ordem certa.
Faço um conjunto equilibrado, de peças conexas pelo desenho que achei mais delicado.

Calculo qual a pena mais pequena, qual a mais eterna, qual a que um dia, por esquecimento, deixei no bolso do casaco. Defino a hierarquia de todas, de cada uma em solidão e do espaço entre elas que tenho de deixar para que todas respirem melhor.

Algumas são coloridas, outras foram perdendo o contraste, foram ganhando camaleónicas adaptações à condição de passado. Todas já foram uma só, e quando todas as penas são uma só deixam de ser penas e são uma pluma de eternizações.
Foi bonito vê-las no fim, organizadas, da mais pequena à maior, da mais escura à mais iluminada, por ordem de importância, por desordem de pertinência – todas as penas são pertinentes, e uma de cada vez é-o mais ainda.

Colei-as com cuspe, daquele mesmo cuspe salgado que as vezes, quando não sabia onde tinha escondido uma pena ou outra, eu tinha nos olhos.
Esperei que secassem, que mirrassem devagarinho para eu pintar com cores os bocadinhos que iam ficando em branco entre uma e outra.
Foi demorado o processo, tive de encontrar uma por uma, tirar o pó, abraçar todas duma vez, não deixar nenhuma escapar no vento e contá-las com cuidado. As que estavam partidas foram as mais difíceis, porque penas partidas não têm arranjo, são como os caramelos que depois de derretidos não voltam mais. Essas, tive de tentar mais do que quaisquer outras encontrar o lugar onde se partiram, tentar entender quem estava com elas e quantas lágrimas as curaram.

Tive de chorar essas lágrimas todas e esperar que o sol as secasse do sal.

Depois também haviam algumas que eram teimosas. Diziam que não eram penas minhas, que eram virtudes de enganos que fui fazendo por aí. Diziam que não seriam condenadas a um quadro completo quando não viam em nada motivo de condenação.
Penas revolucionárias, chamei-lhes eu.
Prendi-as nas minhas pestanas e fi-las chocar nas pálpebras até elas entenderem o que eu queria que elas vissem no que eu via longe.

Quando achei que estava um conjunto equilibrado, pus um parafuso bem resistente pregado em algodão doce.
Pendurei o quadro e soprei com força.

Era o quadro mais bonito do mundo todo naquele momento. Mas também era o mais agarrado ao chão.

Soprei com mais força ainda.

Mas penas passadas não voam organizadas, pintadas nos buraquinhos em branco, presas à nuvem mais doce.
Penas passadas não se colam com lágrimas, não se rendem aos ventos.

Pousam no chão, ganham pó. Algumas teimam sempre, mesmo esmagadas entre as pálpebras, que não são penas de paz. Lutam contra a volatilidade e dizem-se penas pesadas de coisas que não são condenações.

Mas não voam.
Nem se enterram.




Antes de dormir, passo sempre um último segundo a secar uma lágrima. É sempre só mais uma, e é sempre demorado o processo do instante em que ela vai embora.

Antes de dormir olho o chão e olho o céu. Depois passo sempre um último segundo a secar uma lágrima. E é sempre a última.

Antes de dormir…seco as penas e voo. Seco a última lágrima no último segundo: enterro as penas pesadas, pinto os bocadinhos em branco debaixo dos pés e deixo tudo ganhar pó.

Antes de dormir sopro a nuvem, com o sal seco nos olhos e voo. (Sem penas a mais para me prenderem ao chão).



09.11.05
*Mó

terça-feira, novembro 01, 2005

[Desta vez.]

Vou-te ser muito sincera, desta vez.

Já não nos falamos faz tempo, e o que aqui disser não vai ser mais uma vontade de contar a nossa história à minha maneira.
É vincada a certeza de que não te tenho, mais vincada é agora a coerência de que sou o que nunca terei – porque, como tu, não sou de ninguém, e esse ninguém inclui-me na primeira pessoa.

Vou-te dizer que foi importante a primeira vez que te vi, e que não me lembro bem, que foi importante não ter notado nessa altura que estavas numa encubação silenciosa antes de me sanguessugares as coisas de encantar.

Foi importante seres uma surpresa, que eu só soube quando me disseste que te encontrei.

Foi, a certa altura, vantajoso saber que existias, mas só até cercares a minha paz com a tua presença anunciada - que eu anunciei.

Foi bom ouvir-te cantarolar velhas insígnias dum enamoramento que se sabe através de tantos outros séculos de amores que tenho lido por aí.

Foi o aceitar as tuas eternidades como minhas veleidades que fez com que desencarnasse das etéreas vontades que me afrontam de vez em quando – foi bom querer ser a tua rotina quando a minha rotina era a chaga que me electrocutava os sonhos.

Foste, enquanto foste aqui comigo, uma inspiração quieta, serena, de quem há muito queria respirar noutro corpo.

Não mais que isso.

Era bonita a música que baptizamos, especial a lua que alugamos, infinita a história que contamos um ao outro, nas noites de Inverno tardio, quando me vinhas buscar a casa.

Era linda, muito linda
, a simplicidade das personagens, a menina dos envelopes, o teu ombro com o teu violino, a hipnose quase ridícula que ele provocava em mim quando tinhas as mãos a fazer sons e os olhos fechados a ouvi-los.

Era perfeito o ridículo daquele fascínio, quando “ridículos são os que nunca escreveram cartas de amor”, mais ridículos serão os que não lêem o amor que lhes escrevem.

E foi delicioso ver-te nos instantes em que me lias.

Mas nada é tão importante assim.

Procurei-te tantas vezes em mim, para ver se tinhas sobrado no que eu criei.
Plantei-te na alma, com os pedacinhos que não conseguiste levar.
Tentei falar contigo, telefonei-te para te perguntar pelo tempo, por músicas emprestadas, outras devolvidas.
Sufoquei qualquer hipótese de não parecer que te precisava sereno, como a inspiração que me adaptou, a que me adaptei.

Passam-se as águas por baixo dos pés, os ventos por entre os braços e continuo estática, a borbulhar paixões de mim para mim, sobre criaturas extraordinárias que sabem transformar as coisas simples em simples coisas de sonhar.

Mas vou-te ser sincera – nada é tão importante assim.

Não foste capaz de me desembrulhar da pele de linho, mas fizeste da minha pele de carne a mais dolorosa. Para viver sem o conforto de fazer minha a tua sorte tive de fazer figas com os meus dedos e avançar para dentro de mim.

Cheguei perto de me amar.
Muito perto.


E fugi a tempo. Porque amar o que não se terá nunca é lição do passado onde te arquivei.
Porque nada é tão importante assim…porque descobri de uma vez que nunca amei a tua força, nunca invejei a tua garra – saboreei a tua glória porque ela me pareceu bem mais simples que a minha luta.

Porque foste o que pudeste, porque és o que quiseres sem atropelos de maior.

Porque te ofereceram as sortes todas e tu brilhaste maravilhoso, enquanto eu fiquei maravilhada.

Porque tens o requinte de decidir o que faz de ti mais especial, não porque tenhas de gritar como eu grito por tudo o que decido que me faz mais real.

Porque eu sou guerreira e tu és vitorioso, não porque tenhas sido alguma vez mais merecedor do que eu.

E vou-te ser sincera, na batalha dos amantes não houve mortes anunciadas, só a perda duma aliança que seria perfeita – perdeste tu, já que eu parti nesse duelo sem previsões dum final.


31.10.05
*Mó

segunda-feira, outubro 24, 2005

és tu quem não tem estado cá

"...o amor tem estado sempre perto, és tu quem não tem estado cá."

Á tua procura - SUPERNADA



Não tenho tido tempo para inventar coisas.
Não tenho tido paciência nem vontade para inventar coisas.

Ando entretida a brincar ás pessoas crescidas, como se as coisas que não inventei fossem um jogo daqueles em que se tem de passar muitos níveis para depois encontrar o monstro grande, ganhar e ficar com os castelos e os reinos todos do infinito.
Ou com um asteróide, como o menino daquele livro que não me canso de ler enquanto durmo.

As palavras enfeitadas atrapalham os espaços em branco entre as letras.
E eu não tenho tido tempo para barrocas e inóquas poesias. A vida é enfeitada demais para aceitar desenhos bonitinhos.

Só quero poder dormir outra vez com a chuva lá fora, e amanhã acordar com o sol cá dentro, espelhado nos lençóis, bordado nas minhas imperfeições de cansaço.

24.10.05
*Mó

(um beijinho ao menino da foto, e desculpa não te ter pedido para a tornar pública...)

quarta-feira, outubro 12, 2005

E é sempre só porque se sabe que não se fazem rascunhos do coração.
Tenho um corpo cheio de sonhos por dentro.
...mais um céu
...mais um mar
e mais tudo o que eu tiver.



Hope there's someone who'll take care of me
When I die
Will I go?

Hope there's someone who'll set my heart free
Nice to hold
When I'm tired

There's a ghost on the horizon
When I go to bed
How can I fall asleep at night
How will I rest my head

Oh I'm scared of the middle place
Between light and nowhere
I don't want to be the one
Left in there
Left in there


Hope There's Someone

Antony and the Johnsons

foto: Nuno Ferro ("the shell")

sábado, outubro 08, 2005


Eu sei que não lês o que escrevo.
Que nunca te preocupa saber se canto coisas para que caias desarmado no meu colo.

Mas caramba!
Custa assim tanto adivinhar-me à tua procura por todo o lado?

Parei à beira mar. Sem ti, por cá, vou andando, tem sido impossível voar sozinha.

*Mó

sábado, outubro 01, 2005

Pedi a todos que se encostassem à parede.
Revistei-os um a um.

A minha história mais pequena dava um conto policial, com a subtileza de Allan Poe, com a poesia de Baudelaire. A minha história mais pequena dava uma flor do mal, um ensaio sobre uma cegueira que eu achei emocionante inventar.

Não usavam casacos nem sapatos, quase os confundia:
Na mão de um encontrei o meu anel, nos olhos de outro a minha voz, nos lábios dela encontrei um segredo meu, nos lábios dele uma mentira qualquer que eu pedi que ela contasse.
Na sombra do quinto (a contar da esquerda para a direita), vi escondida a minha ingenuidade, entre os cabelos de outro, vi os meus dedos.

Perguntei-te o que achavas, se o crime era tão infundado assim, se era imperdoável tamanha insensatez. Perguntei-te qual seria a condenação.

E tu tapaste-me os olhos para que eu não soubesse mais de mim em partes. Mas eu ouvi na tua voz a condenação que merecias. Roubaste-me o coração, e fizeste-te juíz de tudo o que um dia eu possa querer emprestar a alguém que não tu.

(de tanto bater o meu coração parou)...



A minha história mais pequena dava o mais pequeno conto policial. Dava o canto duma gaivota em maresia incontrolável...uma página dum diário eterno:

"Piés para que te quiero si tengo asas para volar?" - Frida Kahlo

*Mó
01.10.05

sábado, setembro 24, 2005

a trama dos deuses

Não sei quantas vezes já te disse isto.

Dou por mim a duvidar se as palavras querem realmente dizer seja o que for, porque por mais que te fale não me ouves.

Acabei de saber de ti. Encontraram-te vagabundo a deambular pela noite sem mim. Trazias nos olhos uma sede que não me souberam explicar, trazias contigo uma data doutras almas que também vagueiam não se sabe bem porquê, e trazias as mãos vazias, os lábios fechados.

Caímos na mesma trama dos deuses, sei-o bem.
Achava que um dia eu seria capaz de me convencer que vivo bem sem o teu cheiro, começava a ponderar a tua pele na minha pele, já conseguia distinguir os meus braços dos teus abraços.
Mas nunca, nunca supus sequer que te esqueceria.

Já respirava sem ti, meu amor … andava a aprender a dançar com os meus pés e a cair o corpo no chão que eu escolhesse.
Já só chorava por ti uma ou duas vezes por segundo do tempo que um dia decidimos parar. Já cantava desafinada, já sabia rir dos meus atropelos, dos meus atabalhoados ensaios de valsas infinitas.

Já sabia dormir sem confundir o sonho com a insónia. Sonhava contigo em paz, amava-te em paz, longe de ti já sabia que não te tinha, mesmo sabendo que sempre foste meu.



Mas atirámo-nos na trama dos deuses, outra vez.
Enforquei todas as minhas pequenas vitórias de solidão numa teia enfeitada pelos teus suspiros.
Tive-te nos braços outra vez, senti-te a respirar nos meus ouvidos, as tuas mãos espalhadas pelos meus medos.
Apagas-te as memórias quase tornadas passadas, fizeste dos meus triunfos uma nova derrota – tive-te nos braços outra vez, a primeira vez em que senti que podia ser a última.

Não sei quantas vezes já te disse que te amo.
Não sei quantas vezes falei contigo com arrepios, com meias frases aguçadas, meios corpos aprisionados.

No meio do mundo, esqueci-te lá atrás e vi-te olhos nos olhos outra vez. Continuas perfeito, incompleto, enfeitado por um deserto onde não me deixaste entrar. Continuas a saber onde moram os meus sussurros, onde se põe o sol e nasce a lua – onde eu sou da parte do céu que é tua.

Não sei se te matei ali, no meio duma estrada perdida perto de mim.
Não sei se me matei ali, quando acabei com a minha voz sozinha.

Acabei por voltar a casa. Abri a porta, deixei-a fechar. Pelo quarto ainda encontro sinais de ti – encontro a música que me ofereceste e ponho a tocar.

Não sei quantas vezes já te disse, ou se alguma vez falei de mais –
hoje, meu amor, vou abraçar-me mais do que nunca, e adormecer agarrada ao cheiro do teu corpo nos meus beijos.

E hoje não volto a acordar –
antes ter-te cravado ao suicídio mais doce que ter-te perdido num passado que fiz por esquecer.

*Mó
18.09.05

sábado, setembro 17, 2005

Sopraram de longe.
E estávamos perto demais para não estarmos sozinhos...os dois.
É que, meu amor, "eras tu, em todas as praças, em todas as cidades".

Onde é que ficámos mesmo?



Still a little bit of your taste in my mouth
Still a little bit of you laced with my doubt
Still a little harder to say what's going on

Still a little bit of your ghost, your witness
Still a little bit of your face I haven't kissed
You step a little closer each day
That I can’t say what's going on

Stones taught me to fly
Love, taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannonball

Still a little bit of your song in my ear
Still a little bit of your words I long to hear
You step a little closer to me
So close that I can't see what's going on

Stones taught me to fly
Love, taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannon..
Stones taught me to fly
Love, taught me to cry
So come on courage
Teach me to be shy
'Cause it's not hard to fall
And I don't wanna scare her
It's not hard to fall
And I don't wanna lose
It's not hard to grow
When you know that you just don't know


(Damien Rice - cannonball)

quarta-feira, setembro 14, 2005

Muda de sítio.
Apanha boleia de alguém que passe por ti.
Quem não passe por aqui.

E muda de sítio.
Inverte.
Converte a troca na tua escolha.

Dobra a folha
e escreve no verso
um verso...
disperso.


Mas risca.
Arrisca.
Torçe a passada.
Apanha boleia errada.

Engana a morada
de livre arbítrio.

Troca de volta.
...Volta.

Mas muda de sítio.


14.09.05
*Mó



foto: Jan Falkenberg

sexta-feira, setembro 02, 2005

Metáforas de tudo o que são.

Sempre quis ter uma roseira. Daquelas que dão rosas todas as primaveras em flor.
Não queria saber de plantas em vasos, de ramos com arranjos e bilhetes de amor.

Só queria uma roseira.

Cheguei a escrever num diário que sonhava com o dia em que chegavas e me oferecias uma semente pequenina que eu plantava no cantinho mais bonito do jardim. Deixei o diário aberto, na esperança que lesses.

Sempre quis poder escolher a rosa mais bonita e penteá-la de manhã. Depois, escolher a rosa mais pequena e beijá-la antes de dormir, pedir-lhe que crescesse um dia.
Quis oferecer-te um espinho e uma pétala dentro dum envelope sem remetente.

Só com a tua voz no destinatário.

Queria uma roseira num cantinho do jardim. Sozinha, vaidosa, encantadora.
Só queria que fosse minha.


Um dia recebi um envelope.
Sem destinatário, com o teu nome no remetente.

"É a semente duma flor. E um beijo."
Plantei no cantinho do jardim.

Nunca nasceu.
Como esse beijo que nunca chegou.


Mas eu nunca quis um beijo.
Só quis uma roseira. Sozinha, vaidosa, encantadora... que fosse só minha.

Sempre quis ter uma roseira. Daquelas que dão rosas todas as primaveras em flor.
Disseram-me que os sonhos são botões de flor com um perfume que não morre. Botões de rosas.
Por isso é que eu
nunca quis um beijo.
Só quis uma roseira. Sozinha, vaidosa, encantadora...


01.09.05
*Mó

(foto de Joyce Tenesson)

terça-feira, agosto 30, 2005

Podia ser só mais um segundo.
Só mais um dia.
Podia o sol esconder-se só mais uma vez.

Acordar-me do céu só mais uma vez.

Acordo cansada com a vida por abrir num cofre de tempos.
Vivo num templo de cofres com vidas guardadas.

Podia ser só mais um beijo.
Só mais um recado por entregar.
Uma carta por escrever.

Podia ser só mais uma música. Mais uma dança.

Se não fosse a última.





Em flor te aguardo
Neste suspenso momento
Como se o vento
Fosse todo o meu resguardo
E assim me entendo
Ser desta fragilidade
Outra metade
De tão frágil fingimento
Que é seu talento
De entre as pedras ser aquela
Que nos revela
Em cada pedra um sentimento
Porém, se a flor
Tem no destino ser do vento
Há tanto tempo
E eu aguardo, meu amor


Ser Do Vento - Jorge Palma

sexta-feira, agosto 19, 2005

um dia, esqueço-me que vens.

Enquanto ele esvoaçava as velas erguidas mar adentro, ela tinha nos olhos uma maresia que decidiu amar.

Amarravam-se nos portos e esqueciam as promessas eternas.
Ele desabotoava-lhe os botões da camisa de linho e deixava que o vento lhe descobrisse o que a saia adivinhava.
Ela cheirava-o e aspirava-lhe o corpo com as mãos. Beliscava-o, agarrava-lhe a nuca e mordia-lhe o pescoço. Adorava vê-lo fraquejar, na corda bamba entre a loucura e a saudade. Esqueciam as promessas eternas e deixavam-se cúmplices dum sol quase posto, de dois corpos quase sós.

Separaram-se.
Num lugar de ninguém onde não há tempo nem luar.

Ela ficava à espreita, atrás dos mastros, enquanto tecia tramas das vazias promessas eternas que não conseguia esquecer.
-"É melhor assim." - deixou-a. Partiu.

Disseram-lhe que não mais o viram em paragem noutros portos. Ele disse-lhe que não fraquejaria nunca mais, que era do vento e do momento que viesse a seguir.

Disse-lhe que era dela mais do que queria, mais do que aquilo que podia querer dela. Era do vento, não podia ser de ninguém.

Nunca quis que ela lhe contasse histórias reais , de lugares reais - habituou-se a viver no céu que ela pintou só para o receber.

Nunca mais se tocaram.
A camisa desabotoada é parte duma promessa que ela não quer mais esuqecer.
Ele sugou-lhe pelos lábios o sorriso. E partiu...

Quando ela acorda, ou quando não se deixa adormecer, lavra lágrimas entre as águas traiçoeiras.

Vê-o de longe, ás vezes - com o mastro ao alto, num leme que ela escolheu.
Acena-lhe e esvoaça a saia - deixa-se cair.

Ele fica à deriva.
Não retorna a bom porto.
...não volta.

Todos os dias ela ouve o mar traiçoeiro inventar mentiras sobre uma lágrima que diz tê-lo visto chorar.
Todos os dias lhe contam que não mais o viram voar entre as redes duma teia de promessas eternas que não se quiseram cumprir.

Todos os dias ela tenta acreditar que são mentiras as verdades que ouve. Tenta achar eterna a última promessa de todas -

-"Não voltarei..."

Todos os dias tenta não morrer mais.
Não amar mais.

Ela sabe que ele é filho do vento - ela é amante do mar. Ela sabe que as velas erguidas vão sempre trazê-lo de volta...por mais que não a olhe, é ela que vê.

Ela sabe que um dia, no mais belo sol posto, ele vai chegar.
Com os olhos embebidos em saudade, vão voltar a quebrar as promessas eternas que os deixaram tão longe.



(Deixa-te embalar. Adormeçe de vez no colo dum anjo que saiba onde te escondes!
O teu lugar é aqui, onde te espera a sereia com a saia esvoaçada, no mar que chora por ti todas as manhãs.

Não te vais encontrar nesses lugares onde esperas que te procurem - a ausência do que te quer fazer eterno é a condenação à contra-maré.)

Um dia, cansado, tu retornas.
Um dia, cansada, esqueço-me que vens.


*Mó
19.08.05

"Is this the place we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?

Oh, simple thing, where have you gone?
I'm getting old and I need something to rely on.
So tell me when you're gonna let me in,
I'm getting tired and I need somewhere to begin.

So if you have a minute why don't we go,
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything.
So why don't we go somewhere only we know,
Somewhere only we know."

(Keane - somewhere only we know)

segunda-feira, agosto 08, 2005

Dança, ciganinha...

Ela andava sobre os estilhaços como quem penteia as cores do vento.

Ele não a descobriu nunca.
Achava sempre que as saudações de luz eram peças de poetas.

Achava-se poeta, ele.
Inspirava a mão no que dizia sentir.

Ela escrevia na areia. O riacho doce limpava-lhe os olhos quando ela sorria.
Espelhava o céu nos gestos.
Expirava alma no que cantava.

E não cantava palavras.


Ele fugia das fagulhas dos sentidos - não chorava demais, não comia demais, não dormia demais.

Ela dançava ao acordar.
E dançava enquanto dormia.
Tinha sempre os pés descalços e as mãos suadas dum perfume mascavado da cor do açúcar do sol.

A pele escamada era salgada de poeiras. Os cabelos negros torciam-se enrolados nos braços enquanto ela brincava ás escondidas com o mundo todo.


Ele dizia que os beijos se glorificavam - ela roubava com os lábios os cânticos das gaivotas.

Olhava-o.
Chamava-o
e ele escrevia sobre os olhos pérola-negros. Escrevia sobra as mãos queimadas, sobre os cabelos ondulados.

Sorria-lhe.
Escondia-se e voltava e ele tremia os dedos e continuava a escrever.

Fez-lhe um castelo de sonetos, uma ode inventada com riscos e desenhos.

Ela continuava a brincar com as curvas do tempo, as voltas dos gestos torcidos num corpo de sereia.

Um dia, enquanto ela cantava as palavras sem letras que ele não sabia decifrar, caiu das nuvens o dilúvio eterno.
As folhas pintadas de chuva derreteram e as palavras escorregaram pelo riacho doce.


Ele chorou muito.Chorou demais.
Ela puxou-o, sem o chamar. Enrolou os cabelos nas mãos trémulas dele, susteve-lhe o rosto e limpou-lhe as lágrimas com os lábios molhados.
Não lhe sorriu, não lhe cantou.

Ele fechou os olhos e viu tudo o que ela lhe gritava com o corpo.
Deixou que a voz lhe saísse sem pensar no que as palavras queriam dizer.

-Dança, ciganinha, dança...




Encontraram-no a sucumbir no meio da tempestade. Não havia ninguém por perto, ele tinha desparecido sem deixar sinais.
Disse qualquer coisa que as palavras não decifram, sorriu e não mais acordou.
Tinha os pés descalços. As mãos unidas por um fio de cabelo negro.

*Mó
08.08.05


De que tela surgiste, ave, sereia e flama,
toda feita de luz e carne? Os teus olhares,
nas olheiras de fogo, acendem a fagulha
do amor e da paixão, da febre e da saudade.


A cigana, Alexandrina Scurtu

quarta-feira, agosto 03, 2005

Saíram á rua.
Chamaram os responsáveis pelo horário do sol.

Era de noite fazia já 5 meses e ninguém havia contestado - lágrimas não renascem o dia.

Gritaram-me aos ouvidos.
Acordaram-me e afinal não havia ninguém.

Afinal não faltava ninguém.

Era só eu...com a janela cerrada.
(amanheceu...)

*Mó
03.08.05





Sérgio Godinho
Não vás contar que mudei a fechadura


Não vás contar que mudei a fechadura
Nem revelar que reclamei dos teus anéis
O amor dura, se durar, enquanto dura

E o vento voa à procura de papéis

O vento passa à procura dum engano
E quando encontra presa fácil na cidade
Bate à janela e redemoinha e causa dano
Naquilo que é suposto ser nossa vontade

Já de manhã vai parecer tudo tão diferente
Não é do vinho nem do sono ou do café
É só que um olho por olho, dente por dente
Nos deixa o rosto assemelhado ao que não é

E não vás contar-lhes desse abraço derradeiro
Nem que mudei a fechadura mal saíste
Quero o teu rosto devolvido por inteiro
O desse dia em que me vi no que tu viste

E não vás tomar à letra aquilo que te disse
Quando te disse que o amor é relativo
Se o relativo fosse coisa que se visse
Não era amor o por que morro e o por que vivo

segunda-feira, agosto 01, 2005

Dizem-me que há verdades que não se contam.
Digo que há mentiras que se decidem.

Não te digo nada.
Não te digo coisa alguma que oiças.
Perdi-me de ti no dia em que te vi de tão perto que perdi a imagem do que és - ganhei-me desencontrada num espço pequeno demais para mim e o meu prolongamento em ti.

Não me apetece dizer seja o que for.
Nem as verdades todas sobre as mentiras que te contei sempre.

Eu não acredito em fadas.
Nem em sininhos, nem em pós de ouro e céus e luas.
Não peço desejos ao nascer do sol nem me arrepio quando ele se põe.

As músicas que canto, são as que oiço e não as que choro. As que choro não conto a ninguém - nem a mim.

Muito menos a ti.
Que não soubeste nunca que se fiquei com a voz rasgada não foi de te chamar em vácuo - foi de tantas vezes ter-te perguntado o que fazias comigo quando eu estava sem ti.

Nunca estive doutra forma.

Eu não acredito em ti.
Nunca acreditei que fosses o cheiro que trazia comigo quando te levava para os sonhos todos.

Também não acreditei em mim.
Por isso não te contei que mentia quando me tinha encantada.
Por isso não me contei que te perdia quando me acorrentava.

Não acreditei que tivesses ficado longe.
Porque não aprendi a ver-te daqui.




Tocou a última valsa de olhos fechados.
Encravou a voz numa página de seda.

Tudo corre bem enquanto não acaba.


"(...)
Acabado de entrar, pensava como reconfortava a alma
nunca tão poucas palavras tiveram tanto significado
e de repente era assim, do nada, um ser iluminado -
e tudo fazia sentido,
respirar fazia sentido,
andar fazia sentido,
todo o pequeno pormenor em pensamento perdido
era isto que realmente importava,

não qualquer outro tipo de gratificação
(...)

A minha pedra filosofal
Seguia para dentro do nosso pequeno universo
Um pouco disperso - pronto, disponível a ser submerso
Naquele mar de temperatura amena que a minha pequena
abria para mim sempre tranquila e serena.

Tento ter a força para levar o que é meu
Sei que às vezes vai também um pouco de nós
Devo concordar que às vezes falta-nos a razão
Mas nego que há razões para nos sentirmos tão sós
Vem fazer de conta eu acredito em ti

Estar contigo é estar com o que julgas melhor
Nunca vamos ter o amor a rir para nós
Quando queremos nós ter um sorriso maior


Bem-vindo a casa dizia quando saia de dentro dela
O bonito paradoxo inventado por uma dama bela
Em dias que o tempo parou,
gravou, dançou,
não tou capaz de ir atrás, mas vou ,
porque sou trapalhão,
perdi a chave e já nem sei bem o caminho
nestes dias difusos em que ando sozinho
e definho
à procura de uma casa nova
do caixão até a cova
o percurso é duro em toda a linha,
sempre à prova.

Tento ter a força para levar o que é meu
Sei que às vezes vai também um pouco de nós

Devo concordar que às vezes falta-nos a razão

Mas nego que há razões para nos sentirmos tão sós
Vem fazer de conta eu acredito em ti
Estar contigo é estar com o que julgas melhor
Nunca vamos ter o amor a rir para nós
Quando queremos nós ter um sorriso maior
(...)

o calor é um alimento que eu preciso
o amor é apenas um constante aviso
se sabes que eu não vivo dessa forma
tu sabes que eu não sinto dessa forma"


Casa (vem fazer de conta)
- Da Weasel


01.08.05
*Mó