segunda-feira, janeiro 24, 2005

Gosto De Ti

Chamavas por mim durante a noite. Enquanto isso, eu sonhava contigo.

Calcávamos as folhas secas, varridas pelo gelo do ar, salpicadas de rasgos, recortadas no desenho mais perfeito. Era manhã bem cedo, tínhamos tanto para dizer. Davas pulinhos com os olhos quando me arregaçavas uma gargalhada, e eu gostava de ti assim. Passávamos pelo lago sem paredes, havia sempre um peixe ou outro mais atrevido que fazia borbulhar o pano da água quando nos vinha dizer "Olá!".

Íamos sempre para o mesmo banco, ainda o dia era murmúrio. Sentávamo-nos durante pouco tempo, só enquanto olhávamos os nenúfares e as rosas que tinham desparecido desde o verão. Ás vezes ponho-me a pensar se tu realmente vias o mesmo que eu quando não te dizia o que estva a ver.
Talvez por isso não saiba até hoje o que é que foi nosso que também foi meu, e o que foi meu sem nunca ter chegado a existir connosco. Talvez por isso tenhamos visto o peixe dourado nesse dia.

-É a lua, meu amor, os peixes dourados moram no céu, muito longe de nós.

Deitávamo-nos sempre no banco ainda molhado de orvalho, tingido de inverno. Tinha a madeira descascada e o ferro avermelhado pela oxidação, tinha uma cruz gravada numa das tábuas e as iniciais "G D T".
Já lá estavam antes de nós.

Mas foram nossas desde o primeiro dia em que nos deitamos de costas, com a cabeça de um apoiada no ombro do outro, as mãos em cima do ventre e as pernas esticadas.
Passávamos assim dias inteiros, adormecidos pelo cheiro da seiva e do feno, do lodo e do lugar do mundo onde não há peixinhos dourados nem lagos assim.

Há 20 anos que marco os meus pés nos sítios onde o chão não é severo, que desenho rotas e coordenadas sem o rigor da linha nem a vontade das formas, sem o não saber do fim, sem querer conhecer o linho dos segundos.

Já fui pétala de flor de algodão, dauqelas que agarram o vento e correm abraçadas a ele até transparecerem no caos do vazio das coisas inúteis. Fui cinderela e cigana e princesa tantas vezes que já nem sei quantos carnavais inventei.

Um dia, passeava entre juncos erguidos e folhas secas rasgadas. Não tinha mais que metade do tamanho das "pessoas grandes", e dava muitos pulinhos nos olhos como tu, meu amor. Nesse dia, o sol era vermelho e as árvores não tinham roupa nem cobertor. Já via peixes dourados e sabia que um dia ia perceber como é que eles falavam, ia saber se também gostavam de brincar com bonecas e inventar histórias, como eu.
Brinquei ás caçadinhas com as formigas e apanhei uma perto de um abismo - uma frincha na madeira dum banco.
Para conseguir salva-la, agarrei no primeiro pau que vi e tentei persuadi-la a subi-lo e, assim, garantir que nada de mal lhe acontecia. Ao tocar-lhe com a madeira, devagarinho, ouvi um som...Olhei para trás sem impasse ou prudência e quando voltei à minha formiguinha, vi que o maldito pau a tinha decapitado.

Chorei muito, nesse dia.
Com o junquinho desenhei uma cruz bem funda na madeira húmida, e quis escrever qualquer consolação à minha vitima: "Gosto De Ti" pareceu-me bem. Como não tinha espaço, gravei as iniciais.


Chamavas por mim todos os dias. Pela explosão da manhã ou no recolher dos fogos, ao início da noite. Chamavas os peixes dourados e o passo desengonçado do sapateado dos meus pulinhos até ti.

Está frio hoje. Partiram uma das tábuas do banco e o lago já não tem peixinhos. Passo aqui dias inteiros, à noite chamo por ti e sonho contigo.

- Gosto De Ti... Gosto muito.


23.01.05

*Mó

3 comentários:

aquele a quem chamam Jonas disse...

>>
noite janeiro
lua cheia
quem me adora?
quem em odeia?
olhos teus
saudades minhas
soube ha pouco que ja nom vinhas
>>

e' uma citazom mas nom disponho de momento do nome do author


por alguns dias colei ao monitor `a espera de palavras tuas e pensei que te tinhas calado de vez...
mas por alturas da lua cheia la estavam elas frescas
a tirarem me do sufoco...

e respirei...

eras a unica literatura portuguesa que chegava ate mim

*s de neve
Jonas na Silesia

Anónimo disse...

De longe vejo a finura da alma q te arrebata e vibro por tares bem, melhor assim, sem duvida melhor assim. quero-te bem....


Joel Monteiro

salamandra disse...

jonas!
quantas vezes
pelas portas das alcoviteiras
bregeiras...
daquelas que sabem de tudo
perguntei por ti?

ainda a alvorada era pacata...
miúda
com olhos de prata.

as beatas
latejavam uma cara muda.

"passou entre tantos
que nos entremeios dos tantos
perdeu-se em encantos
alheios."

fazes-me falta, caramba!

caramba pra ti!
que foste po frio e ainda n recebi o teu bafo pelo correio!

caramba! jonas!
nem as beatas das portas tu deixas falas mansas de mim?

...tolinho...

gosto de ti, tolinho...